“Mimimi”

Sou favorável a neologismos. Palavras novas surgem a todo tempo ao longo de gerações, grupos e espaços. Faz parte da comunicação… mas confesso que alguns me incomodam. Não por ser uma palavra ou expressão nova, mas sim pelo significado que ela transmite e a que a associam.

Me refiro, especialmente, a expressão mimimi, que tem sido muito utilizada pelos brasileiros.

Mimimi é um termo que surgiu como uma brincadeira referindo-se a desculpas para deixar de fazer algo ou até para discordar de fatos insignificantes, como por exemplo, quando seu time perde e um outro brinca na esportiva, ou ainda quando você precisa malhar e está com preguiça e precisa deixar o mimimi, parar de dar-se desculpa, dentre outras aplicações mais leves. Porém isso mudou e uma carga fortemente pejorativa foi atribuída à expressão.

“Mimimi é uma expressão usada na comunicação informal usada para descrever ou imitar uma pessoa que reclama. O mimimi tem uma conotação pejorativa, sendo muitas vezes é utilizado para satirizar alguém que passa a vida reclamando.”

Fonte: https://www.significados.com.br/mimimi/

Atualmente tem sido atribuído à expressão a ideia de “fazer tempestade em copo d’água”, “frescura”, “vitimização” e ainda, com uma carga mais profunda, “desprezo por sua opinião, situação ou dificuldade”. E por que digo desprezo? Vejamos.

Geralmente, as pessoas tem utilizado tal expressão para discordar de uma ideia apresentada e que é contrária à sua opinião, numa tentativa de minimizar ou invalidar o posicionamento pré-apresentado do outro, colocando-o como aquele que vitimiza tudo.

Até então, discordar faz parte. Porém discordar sem capacidade argumentativa, sem senso de realidade, sem conhecimento dos fatos atuais e, principalmente, sem empatia, torna um tanto mais difícil engolir tal expressão.

Costumo definir tal palavrinha como:

Afirmo isso, pois constantemente as pessoas têm declarado ser um mimimi quando outras pessoas relatam a existência de preconceitos e outras situações de minimização social e pessoal, como o racismo, a homofobia, o machismo, a pobreza, dentre outras “minorias” (leia “minorias” aqui como os que são vistos como menores por uma oposição estigmatizadora).

Quando denunciamos tais violências a esses grupos e/ou quando mostramos posições opostas sobre determinado assunto, tendemos a ser taxados como mimizentos, vitimizadores.

Tal termo tem sido também atribuído a oposições políticas e ideológicas: aquilo que vai contra o que penso é mimimi [ainda que os rotuladores não confessem, muitos pensam assim. Percebe-se, por exemplo, na tentativa de debates].

Com isso, torna-se complicado estabelecer diálogos com pessoas que tudo levam como “mimimi”, situações estas muito mais complexas e profundas. Sendo assim, reafirmo: para não perderem o “jogo”, para “sairem por cima”, os adultos infantilizados ecoam a expressão mimimi no sentido de “Cale-se! Você reclama demais!”, em vez de tentar compreender o outro lado. Daí a falta de empatia.

Realmente, talvez jogar a poeira para embaixo do tapete seja mais fácil do que tentar compreender o que se passa com cada um antes de emitir julgamentos, rotular… talvez seja mais fácil selecionar fatos isolados e esquecer de uma grande parcela que reclama, apesar de não ser à toa… talvez ainda seja mais fácil seguir oprimindo os oprimidos.

Enfim! Já fiz meu mimimi de hoje. Apenas deixo essa reflexão para que sejamos mais humanos, mais ouvintes e mais respeitáveis uns com os outros. Sua dor não é a dor do outro. Sua dificuldade não é a dificuldade do outro. Sua verdade não é a verdade do outro. Sua realidade não é a realidade do outro.

Pare e pense. Talvez você que rotula os outros como mimizentos não percebe que talvez você seja um mimizento por reclamar daqueles que reclamam. É difícil mesmo quando o calo aperta. Cuide-se também para não se ver como mimizento quando se deparar com uma dificuldade.

3 comentários

  1. Há pouco fiz um comentário em uma publicação e fui chamado de “mimizento”. Respondi o seguinte:

    “Acho cômico que, se pararmos para analisar, quem chama os outros de “mimizento”, está sendo mais mimizento do que aquele que está sendo chamado de mimizento!

    Pelo menos, quem está sendo chamado de mimizento, geralmente está defendendo uma ideia ou está questionando uma questão que não é positiva, que faz mal para alguém ou faz uma ideia ruim e retrógrada continuar se perpetuando, não permitindo a evolução da sociedade em direção da igualdade e cada vez mais distante das injustiças historicamente constituídas.

    Já os privilegiados, que não sabem o que é sentir na pele a rejeição, o ódio ou o ataque da sociedade preconceituosa, que se considera detentora do poder de decidir o que é certo ou errado, moral ou imoral, ou até mesmo o que é bonito ou feio, são as pessoas que se colocam em um pedestal e se julgam “do bem”, mas na prática, se mostram especialistas em julgar e condenar aos outros, mas são omissas, parciais e totalmente hipócritas quanto as suas próprias ações!

    Esse povo privilegiado, os alecrins dourados da sociedade, na realidade, fazem parte da camada da sociedade que menos conhece o significado de empatia! De amor ao próximo! De solidariedade! São aqueles que trilham o caminho mais cômodo, de julgar e condenar, ao invés de buscar compreender ou se colocar no lugar dos outros.

    Se essas pessoas olhassem mais para as suas próprias ações e procurassem julgar mais a si mesmas e as suas próprias ações, estaríamos no caminho da evolução e da construção de uma sociedade compatível com os parâmetros de igualdade e justiça que já foram alcançados, mas não acontecem na prática ou acontecem para uma parcela ainda muito pequena das pessoas do mundo, em sociedades de países ricos de primeiro mundo.

    Que venham os mimizentos privilegiados me chamar de mimizento, de chato de comunista! Fiquem a vontade. Pelo menos, quando julgo as minhas intenções e ações, fico satisfeito e orgulhoso! E vocês? 😘”

    Curtido por 1 pessoa

    • Falou tudo, Vitor! Empatia tem sido algo em falta para muitos! E como dói ouvir as tantas besteiras que os que nos julgam mimizentos dizem. Mesmo assim, não podemos nos calar quanto às injustiças, desigualdades e rachaduras da sociedade. Alguém tem que falar, ainda que muitos não queiram ouvir.

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