A “cremação” do Museu Nacional

“O descuido com a memória apodrece as pontes para o futuro!”

Mario Sergio Cortella

 

Ontem, 02 de setembro de 2018, o Brasil vivenciou mais um triste episódio: o incêndio do Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Fonte: globo.com

Criado por D. João VI, o museu tinha completado 200 anos em junho deste ano.

Com o fogo, ali se foram registros históricos, culturais, sociais, científicos da História do Brasil e de boa parte do mundo. Mais de 20 milhões de itens que praticamente se perderam. Este era o 5º maior acervo do mundo.

Foi nesse espaço que a princesa Leopoldina assinou a declaração da independência do Brasil em 1822 e que também foi local de estabelecer, por volta de 1890, o fim do império no Brasil.

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Museu Nacional – Fonte: Página do Facebook do Museu Nacional

O museu continha um acervo histórico da época do Brasil Império, bem como outros itens de grande importância, como o mais antigo fóssil humano encontrado no Brasil, “Luzia”, uma coleção egípcia inicialmente adquirida por Dom Pedro I, um meteorito de 5 toneladas, uma coleção de arte greco-romana da Imperatriz Teresa Cristina, coleções de Paleontologia, dentre muitas outras indicações da nossa história, da nossa cultura, das ciências, da educação.

Mais do que um “palácio da família imperial”, como aponta a declaração reducionista e infeliz do prefeito Crivella, um Museu Nacional tem muito a ensinar ao seu povo sobre um passado que reflete no presente e no futuro de sua nação nas diversas áreas.

São espaços culturais como esses que nos fazem compreender o percurso e as consequências que decorreram na situação que nos encontramos atualmente. Muitos não entendem o porquê de museus existirem e/ou até pensam ser exagero quando há uma comoção por parte de estudiosos da área. Mas isso, infelizmente, é apenas o retrato de uma maioria, que pouco compreende os benefícios que investimentos em educação, cultura e ciências podem trazer ao futuro da sociedade.

Por falar em investimentos em museus no Brasil, apesar de em uma década isso ter ampliado (acesse: http://www.museus.gov.br/), nos últimos tempos, é notável o descaso nessas áreas. Especificamente, este museu estava recebendo apenas dois terços do orçamento, apesar das dificuldades e de protestos de funcionários e visitantes (acesse: https://oglobo.globo.com/).

Em maio deste ano, este museu já pedia socorro. Veja: http://g1.globo.com/. E ao completar 200 anos, foi assinado o patrocínio do BNDES de 21,7 milhões para revitalização. Mas talvez tenha sido tarde. Foi…

Sérgio Sá Leitão, atual Ministro da Cultura, manifestou-se quanto ao incidente:

“Um incêndio está destruindo o Museu Nacional, que pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro. É uma imensa tragédia. Trata-se do museu mais antigo do país. Completou 200 anos em junho. Tem um acervo fabuloso em diversas áreas. Aparentemente vai restar pouco ou nada do prédio e do acervo exposto. A reserva técnica não foi atingida. É preciso descobrir a causa e apurar a responsabilidade. O BNDES assinou em junho um contrato de patrocínio no valor de R$ 21,7 milhões. Tenho procurado ajudar a instituição desde que entrei no MinC. O Instituto Brasileiro de Museus realizou diversas ações. Infelizmente não foi o suficiente. Temos que cuidar muito melhor do nosso patrimônio e dos acervos dos museus. A perda é irreparável. Certamente a tragédia poderia ter sido evitada. O MinC está de luto. A cultura está de luto. O Brasil está de luto. É vital refazer o Museu Nacional, revendo também seu modelo de gestão. E investir agora para que isso não aconteça nos demais museus públicos e privados.”

Estamos falando de memória Nacional.

Desculpe o termo, mas é fácil “pagar pau” para os outros países, com seus lindos museus e com seus outros grandes investimentos em educação e cultura, e esquecer-se que isso é só mais um descaso dos (des)governos do chamado Brasil.

Onde está o investimento?

E a PEC do teto de gastos segue caminhando, assim como o aumento do bolso de alguns privilegiados também (sem contar futuros candidatos que pretendem acabar com o Ministério da Cultura).

Será preciso sempre chegar ao extremo para que providências sejam tomadas?

Por que não prevenir ao invés de remediar? Parece que para tudo o Brasil tende a querer limpar o rebosteio em vez de evitá-lo.

 

“[O museu é um] Espaço fascinante onde se descobre e se aprende, nele se amplia o conhecimento e se aprofunda a consciência da identidade, da solidariedade e da partilha.”

Instituto Brasileiro de Museus

 

“A crise da educação no Brasil não é uma crise: é um projeto.”

Darcy Ribeiro

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